segunda-feira, 12 de abril de 2010

Anjo da guarda


Raramente falo aqui do meu Pai. Não que não o recorde com imensa saudade mas porque me sinto sempre triste quando o recordo. Precisamente por causa dessa saudade imensa que lhe sinto.
Mas lembro-me, exactamente, do momento em que ele morreu. Na cama da nossa outra casa, onde só estávamos nós, a minha mãe e a minha tia. À espera.
Lembro-me que era eu que estava na cama com ele. O meu pai deitado, já com imensa dificuldade em respirar e eu ao lado dele, a segurar-lhe na cabeça.
Lembro-me de ter pensado:
Oh, Deus, leva-o lá para o teu lado, que isto não faz sentido nenhum. Lembro-me de o ter dito em surdina, mas ainda assim, em voz alta. E de, poucos minutos depois, o meu pai ter morrido.
Ainda hoje sinto um enorme aperto no coração quando penso nisso. Como se ele tivesse apenas estado à espera que eu o deixasse ir.
Se eu soubesse disso… talvez o tivesse dito antes, sei lá…
E lembro-me claramente do momento em que ele morreu e de eu ter ficado, com uma mão, a segurar-lhe a cabeça e, com a outra, a fazer-lhe miminhos na cara. E, a dizer-lhe baixinho, bem baixinho, só para ele ouvir, que se podia ir embora. Que nós, eu, a minha mãe e a minha irmã íamos ficar bem.
Tinha ouvido ou lido, não sei onde, que as pessoas, quando morrem, quando deixam de respirar, ainda nos ouvem durante uns segundos. Por isso, não chorei. Nem permiti que ninguém lá em casa chorasse durante esses segundos. Não queria que ele levasse na memória o nosso choro.
E, por isso, continuei ali. A mimá-lo e a repetir-lhe, vezes sem conta, que tudo ia correr bem.
Não tenho recordação dos momentos a seguir a esses segundos. As minhas memórias desses tempos são muito selectivas, muito entrecortadas, muito cheias de vazios.
Mas sei que foi no momento exacto em que o meu pai deixou os meus braços em direcção ao céu, que eu percebi que, a partir daí, ia haver sempre um anjo a tomar conta de mim…
Sinto-te a falta.