terça-feira, 3 de junho de 2008

Os cheiros e as memórias


Sou uma pessoa de cheiros. E de afectos. E de cheiros que lembram afectos.
Hoje, mais uma vez, a magia da Baixa. dos cheiros das lojas, das recordações das ruas, das evocações das memórias.
A lembrar-me, hoje, de uma amiga de toda uma vida com quem perdi o contacto há mais de dois anos.
Não pela distância fisica (vivemos até muito perto), mas pela distância da intimidade. Que se perdeu sem eu saber como. Apenas se perdeu.
Acho que por algum tempo ambas fizemos um esforço para que essa intimidade se reavivasse, para que os laços se não perdessem, mas a partir de um dado momento, deixou de fazer sentido.
Podia ligar-lhe, claro. Ou simplesmente ir lá a casa, mas isso também deixou de fazer sentido. Porque tenho saudades das amigas que fomos, não das amigas que eramos nestes últimos tempos ou poderíamos ser agora.
Tenho sobretudo saudades dos tais cheiros.
Dos lanches com copos enormes de leite com chocolate e bolo acabado de fazer (a mãe dela, de quem já nem lembro o nome, fazia bolo todos os dias...), das tardes de cinema a ver o carteiro de Pablo Neruda e outros, dos poemas escritos a duas mãos, dos tempos do grupo coral a cujos ensaios faltavamos às quartas feiras à noite para ver o Sherlock Holmes, das missas dos domingos de manhã, das ruas que calcorreávamos sem destino, das horas que passávamos ao telefone (o meu pai costumava dizer que mais parecíamos namorados...), das mensagens subliminares que trocávamos... da amizade sem esforço que todos os dias mantinhamos.
Não sei mesmo como isso se perdeu. Sempre nos imaginamos velhinhas a beber chá no magestic!
E hoje, lembrei-me dela duas vezes:
Ao passar por uma loja em Santa Catarina, onde costumávamos dizer que íamos gastar o nosso primeiro ordenado (nenhuma de nós fez isso, porque a moda das peles, felizmente, passou!) e ao entrar numa outra loja onde já não ia há muitos, muitos anos...
Nem sabia se ainda existia... Mas existe. E é uma loja onde iamos muitas vezes. Uma espécie de drogaria que chamávamos de "loja das coisas e loisas".... nem sequer sei o nome... cheira a velho, mas um velho confortável, familiar... Tem lá de tudo: plásticos, fracos, caixas, sacos de presentes de todos os feitios e uma série de utilidades que não se encontra em mais lado nenhum.
Comprei coisas que não eram indispensáveis, mas que fazem sempre jeito. E fiquei com aquela sensação boa e marga de saudades.
Desses tempos de intimidade, de despreocupação, de sonhos e projectos.

Não há centro comercial que tenha estes cheiros! Que possa evocar estas lembranças...
Eu e a magia dos cheiros das ruas do Porto!...