
Ontem fui, acho que pela primeira vez em toda a minha vida, sozinha ao cinema.
Fui ver o filme “Marley & eu” e, vá-se lá saber porquê, fartei-me de chorar.
É certo que não estavam assim muitas pessoas na sala, mas é certo também que acho que só eu é que chorei…
Primeiro porque sou, de facto, chorona e depois porque lido muito mal com o sofrimento, mesmo que seja em filme e não me diga, aparentemente, nada.
A minha Mãe diz que nisto sou parecida com o meu Pai. A maior parte das vezes prefiro não saber do sofrimento. Por isso raramente vejo telejornais ou ouço notícias menos agradáveis. Claro que não é por eu ignorar as coisas que elas desaparecem – bem sei. Mas posso pelo menos afastá-las um bocadinho. E, se um dia, essas coisas más me baterem à porta, cá estarei para lidar com elas. Enquanto for na porta alheia, deixá-las lá.
Bom, isto a propósito do filme que acompanha a vida de um cão, o “marley” (como o Bob) na vida de um casal.
Tem muitas coisas curiosas: O facto de o cão ser indomável, o facto o marido do filme ter comprado o cão para acalmar o desejo da Mulher de ter filhos, o facto de esse casal acabar por se ver com três filhos (o segundo e terceiro, nitidamente por acaso), o facto de ambos terem abdicado de muita coisa em prol desses filhos e dessa ideia de família.
A certa altura o marido pergunta à Mulher se ela é feliz, uma vez que nada daquilo que tinham correspondia ao plano que tinham traçado e ela responde que apesar de nada corresponder ao plano dela, o que tinham ultrapassava em muito o planeado. Que não se arrependia, por um momento, das concessões que tinha feito, das coisas de que tinha desistido. Que sim, era feliz.
E não pude deixar de pensar que aquilo pelo qual eu e o V. passamos se repete em tantos e tantos casais. Que são ultrapassados pela própria vida. Afinal é tão comum…
Nós é que, do alto da nossa ignorância e presunção, pensamos sempre que somos melhores que os outros, que a nós nunca nos vai acontecer.
Porque acontece. Muitas e muitas vezes. A diferença está no modo como se encaram as frustrações, as desistências, as concessões e se vê (ou não) a magia do que se ganhou em troca.
Felizmente sempre consegui ver isso. Apesar de nunca ter sido o meu plano ser uma burguesinha com três filhos, sempre consegui ver a beleza e a magia do que ganhei em troca. Posso não ter ido salvar pessoas para Moçambique como tantas vezes sonhei. Posso não ter uma vida admirada pelos outros pela grandeza dos meus actos, mas tenho, em troca, uma família linda e doce que todos os dias me aquece a alma.
Ando há três anos a adiar uma pós graduação da qual começo a sentir muita falta, ando há três anos a adiar viagens que sei só vou poder fazer daqui a muitos anos, ando há três anos a adiar muita coisa que vou ter de adiar ainda por mais algum tempo mas, em contrapartida, quando tenho de manhã, na minha cama, três pares de braços e três pares pernas em cima de mim e ouço os meus bebés dizer, contentes, “- cabemos todos aqui mamã, que bom!” sei que não preciso de mais nada na minha vida.
E que, por muito que tenha ainda de desistir de outras coisas que são ou serão importantes para mim, enquanto os tiver comigo, não terei nenhum arrependimento.
Sim, não era este o meu plano. De todo. Mas ultrapassa em muito, pela positiva, tudo aquilo com que sonhei.
O filme acaba com a seguinte pergunta: Quantas pessoas nos fazem, de facto, sentir, extraordinários?
Pensem nisso. Quantas pessoas vos fazem sentir, de facto, extraordinários????
São essas as pessoas que devemos amar incondicionalmente. Que devemos estimar, reconhecer e guardar bem juntinho de nós. São essas pessoas que devemos acompanhar sempre que nos for possível. Porque a vida é tão curta…
Não vale mesmo a pena se não for vivida ao lado de quem nos fizer sentir pessoas extraordinárias…. Digo eu, sei lá!